Giving Tuesday
Sara Moinhos

Todos os dias há um Porto que se ofusca pelas luzes turísticas da cidade. Que esconde ruas estreitas, por vezes sombrias, que servem de palco às histórias de quem por lá vive. É o Porto que poucos conhecem e que neste Giving Tuesday tentamos ajudar. 

 

“É importante ter estas caras conhecidas perto de nós, que falam connosco, que nos ouvem e que nos apoiam em tudo quanto podem” – Carlos Moreno, beneficiário do projecto Porto Escondido
 

    

 

Giving Tuesday

Ajude-nos a ajudar!

São muitos quilómetros de dedicação e serviço ao próximo, garantindo a sua dignidade, bem como o acesso igualitário e gratuito a cuidados de saúde primários, os quais não podem ser descontinuados. Para tal, precisamos de si! Ajude-nos a adquirir uma Unidade Móvel de Saúde devidamente equipada e junte-se a nós na luta contra todas as doenças, até mesmo a injustiça. 

Clique aqui e ajude!

Representação Norte da Médicos do Mundo (MdM). Rua dos Mercadores. Há uma porta que se abre para receber Carlos, uma das tantas histórias escondidas pelas ruas da cidade e apoiadas pelo Porto Escondido.

Tem 60 anos e é com um sorriso tímido no rosto que nos conta como regressou à Invicta, após vários anos emigrado. Conhece as ruas de Inglaterra, de Espanha, da Alemanha e lembra as histórias do que lá viveu.

Foi trabalhador na construção civil, onde passou grande parte do seu tempo, até lhe ter sido diagnosticado um problema de saúde que o impossibilitou de continuar a trabalhar. Chegou a Portugal dias mais tarde. Lembra-se do tempo que ficou internado no Hospital Joaquim Urbano e do esforço que fez para pagar tudo do seu bolso. Após ter alta, e sem outro lugar para onde ir, Carlos pediu ajuda à Segurança Social e mudou-se para um quarto que serviu de sua casa até ao dia em que as poupanças acabaram. Reformado, e com uma pensão insuficiente face às suas despesas, fez da rua o seu novo “lar”, sendo agora um dos mais recentes elementos de um centro de alojamento temporário no Porto.

“Conheço a Médicos do Mundo há sensivelmente sete anos. Já os conhecia de vista, quando morava numa pensão. Uns tempos mais tarde, quando vim para a rua, comecei a ser ajudado pela equipa de rua do Porto Escondido. Deram-me medicação, umas roupinhas, produtos de higiene e vacinas”, conta Carlos 

A equipa de rua do projecto Porto Escondido visitava Carlos numa das tantas voltas que dava pela cidade. Ao seu lado, e durante muitos anos, o companheiro de todas as horas, um outro beneficiário da MdM.

“Saí da rua porque perdi a pessoa com quem dividia o meu espaço. Era uma pessoa que eu entendia e que me entendia a mim, mas integrou uma resposta de alojamento e eu fiquei sozinho até ao momento em que outras pessoas, consumidoras de drogas, ocuparam aquele espaço. Fui embora porque precisava de sair dali. Ainda fiquei uns dias a dormir perto de uma obra, mas não tinha condições nenhumas. Foi aí que pensei ‘vou tentar’ e fui”, relata Carlos

 

Este é o Porto Escondido que todos os dias se ilumina por uma equipa de profissionais de saúde, terapeutas, psicólogos, educadores de pares e voluntários experientes. Tratam os beneficiários pelo nome e entre sorrisos dão os medicamentos pedidos, as consultas médicas, de enfermagem, de apoio psicossocial, aplicam o Programa Troca de Seringas, encaminham e acompanham os utentes a serviços ou fazem os rastreios de infecções sexualmente transmissíveis. Neste Porto Escondido quebram-se tabus e a pouco e pouco vão-se construindo as relações de proximidade, sempre em articulação com as entidades parceiras.

 

“A gestora de caso do Sr. Carlos não trabalha directamente no terreno, o que faz com que as equipas de rua, que intervêm numa lógica de proximidade, tenham tanta importância no encontro das estratégias e respostas mais adequadas a cada caso. Somos uma ponte entre o beneficiário e as estruturas formais. É também para isso que o projecto Porto Escondido existe. Tudo se faz de forma articulada, em consonância com as entidades parceiras e respeitando a vontade de cada pessoa. Para o Sr. Carlos, este era o ponto de partida para ao fim destes anos todos poder avançar e tomar outras decisões na sua vida”, afirma Márcia David, Educadora Social da MdM. 

O projecto Porto Escondido

Já cai a tarde na Alfândega do Porto quando a Unidade Móvel de Saúde se liga e inicia mais uma volta do projecto Porto Escondido. Há 10 anos que serve de consultório ambulante e se desloca onde é mais precisa, indo ao encontro de pessoas em situação de sem abrigo, utilizadores de drogas, homens que fazem sexo com homens, transgénero, transsexuais trabalhadoras do sexo e imigrantes. Pessoas que vivem à margem da sociedade e que, por diversos motivos, não recorrem aos serviços do Sistema Nacional de Saúde. 

Segundo Raquel Rebelo, directora de projectos Norte e Centro da MdM, “são várias as condicionantes que impedem o acesso a cuidados de saúde por parte destas populações. Podem ser condicionantes económicas, falta de estrutura familiar e de priorização da saúde, a falta de documentos ou simplesmente o estigma associado a estas pessoas. Por isso é importante que existam equipas de proximidade, como a do Porto Escondido, que sejam pontes entre a rua e as estruturas formais”.  

Existente há 14 anos, o projecto Porto Escondido tem agora como objectivo detectar, de forma precoce, e prevenir as infecções por VIH e SIDA, bem como outras infecções sexualmente transmissíveis. 

“Cerca de 50% dos casos de VIH são diagnosticados tardiamente, ou seja, quando identificados já se encontram em fase avançada ou em estádio de SIDA. E é por isso que se justifica que existam testes rápidos nas equipas de proximidade, especialmente junto a populações de difícil acesso, que são aquelas pessoas que não se deslocam às estruturas formais para fazer um rastreio. Eis a razão pela qual intervimos nos locais de contexto, convivência, de pernoita, de tráfico e de consumo; para que possamos trabalhar no diagnóstico precoce e na prevenção destas infecções”, revela Raquel Rebelo

A equipa do Porto Escondido, composta por uma educadora social, psicóloga, duas enfermeiras e vários voluntários médicos, procura, dia após dia, melhorar as condições de saúde das populações que encontra na rua, incorporando para tal, e de forma pioneira, uma outra figura: o Educador de Pares.

“O Educador de Pares é um técnico importantíssimo numa equipa que trabalha em contexto de rua. É alguém que tem em si a experiência do seu passado e que agora nos ajuda a escolher as melhores estratégias, a repensar e a ajustar. É uma pessoa que faz a ponte entre os beneficiários e a restante equipa, que nos ‘abre caminho’ para que possamos intervir e ajudar”, acrescenta Márcia David.      
 

A importância da Unidade Móvel de Saúde

É com recurso a uma Unidade Móvel de Saúde que a equipa percorre a cidade do Porto, Vila do Conde, Matosinhos e Vila Nova de Gaia, dando respostas a várias outras necessidades de saúde e sociais das pessoas que encontra. Para além da detecção precoce e prevenção do VIH/SIDA e infecções sexualmente transmissíveis, a Unidade Móvel (carrinha) possibilita, sempre a título gratuito, a prestação de cuidados de saúde, as consultas psicossociais e o encaminhamento dos beneficiários para as várias estruturas de suporte. É o que nos permite estar onde quase ninguém chega, onde quase ninguém ajuda e onde muitos se escondem.  

Actualmente, e devido ao desgaste dos últimos 10 anos, a Unidade Móvel encontra-se no fim da sua vida útil, comprometendo a ajuda que a MdM dá no Porto junto das pessoas que, diariamente, precisam dos nossos apoios. Se nos puder ajudar a angariar fundos para uma nova viatura, devidamente equipada, ficaremos eternamente gratos. Não importa o valor, mas sim que juntos conseguimos ajudar mais pessoas. 
 

Neste Giving Tuesday, ajude quem mais precisa.