29 de janeiro de 2026
A Faixa de Gaza é uma zona densamente povoada, com 365 km², onde vivem 2,2 milhões de habitantes. Isolado do resto do mundo, o enclave está sob bloqueio israelita há 16 anos. Antes da crise atual, os serviços públicos funcionavam, mas a situação humanitária já era precária. Desde o início dos bombardeamentos a 7 de outubro e do cerco total imposto pelo governo israelita a 9 de outubro, Gaza enfrenta uma catástrofe humanitária de grande magnitude.
As infraestruturas públicas colapsaram, em particular os sistemas de saúde e de abastecimento de água potável. A destruição de casas, de infraestruturas de saúde, de escolas e de outros abrigos da UNRWA (Agência das Nações Unidas para os Refugiados Palestinianos no Médio Oriente) acelerou este colapso. A maioria dos hospitais está praticamente sem funcionar. Enfrentam uma escassez severa de medicamentos e de equipamentos médicos, enquanto estão sobrelotados devido ao afluxo de feridos e de pessoas deslocadas.
Os habitantes de Gaza carecem de tudo: água, alimentos, combustível e eletricidade. A população bebe água contaminada e faz uma refeição por dia. 1,9 milhões de pessoas foram deslocadas pelos bombardeamentos em Gaza, muitas delas por várias vezes, e dormem na rua ou em abrigos sobrelotados. O aumento dos casos de diarreia, de infeções cutâneas e respiratórias agudas e de infeções relacionadas com a falta de higiene faz temer o surgimento de epidemias que colocariam em perigo as pessoas mais vulneráveis.
Em ano e meio, as taxas de desnutrição aguda em Gaza atingiram níveis semelhantes aos de países confrontados com crises humanitárias que perduram há décadas.
Ao longo dos últimos 10 meses, a evolução das taxas de desnutrição aguda nos centros de saúde geridos pela Médicos do Mundo (MdM) evidencia a responsabilidade humana sobre a fome na Faixa de Gaza. Em 2024, os valores máximos de desnutrição aguda observados nos centros da MdM coincidiram com a maior quebra, nesse ano, no número mensal de camiões que transportavam ajuda para Gaza. Em contrapartida, as taxas diminuíram de forma significativa após o levantamento parcial das restrições israelitas na sequência do cessar fogo no início de 2025. Esses progressos inverteram se rapidamente em março e abril de 2025, com um novo aumento da prevalência de desnutrição aguda associado ao cerco total imposto pelas autoridades israelitas desde 2 de março. Face a estas constatações, é claro que as taxas mensais de desnutrição aguda entre mulheres e crianças dependem das decisões das autoridades israelitas de autorizar ou bloquear a ajuda humanitária.
O nosso relatório sobre a desnutrição em Gaza sublinha um risco iminente de fome, dada a escassez de reservas alimentares desde o cerco total imposto pelas autoridades israelitas.
Em abril de 2025, uma em cada cinco mulheres grávidas ou a amamentar e quase uma em cada quatro crianças atendidas nos centros de saúde da MdM apresentavam desnutrição aguda ou um risco elevado de a desenvolver.
Na Cisjordânia, mais de 330 palestinianos, incluindo 84 crianças, foram mortos pelo exército ou por colonos israelitas entre 7 de outubro de 2023 e 10 de janeiro de 2024 (em 2022, tinham sido 144). A maioria perdeu a vida durante os raides quase diários do exército israelita. Visando várias vezes infraestruturas de saúde e ambulâncias, estes raides impediram o acesso das populações civis aos cuidados de saúde. Os pontos de controlo também se reforçaram, restringindo a circulação e constituindo um obstáculo ao acesso à ajuda humanitária ou às infraestruturas de saúde. Os atos de violência de colonos israelitas contra civis palestinianos aumentaram drasticamente. Antes de 7 de outubro, registavam se três atos destes por dia; atualmente, a média passou para sete por dia. Mais de 1.200 palestinianos foram deslocados à força das suas comunidades. Impedidos de regressar às suas terras, perderam tudo. Devido à situação geral de insegurança, quase já não têm acesso aos serviços básicos.
Caducidade do registo da Médicos do Mundo
A 30 de dezembro, 37 ONG internacionais receberam uma notificação oficial indicando que os seus registos caducariam a 31 de dezembro de 2025. Esta comunicação desencadeia um período de 60 dias, ao fim do qual as ONG internacionais seriam obrigadas a cessar as suas operações em Gaza e na Cisjordânia, incluindo em Jerusalém Oriental.
