Na Ucrânia, apesar dos bombardeamentos, algumas pessoas escolhem ficar. Ficar para cuidar, a apenas 15 quilómetros da linha da frente. Ficar para que os seus vizinhos possam continuar a aceder a um centro de saúde ou a um hospital. E, sobretudo, ficar para oferecer um espaço onde os habitantes possam falar do seu sofrimento, pedir apoio psicológico e preservar a sua saúde mental, mesmo após quatro anos de guerra.
No terreno, a Médicos do Mundo forma os profissionais de saúde para a prestação de cuidados de saúde mental, permitindo lhes tornar se um verdadeiro apoio para os milhares de ucranianos confrontados diariamente com o medo de novos ataques.
Conheça os testemunhos de Larysa, enfermeira, e de Volodymyr Fesenko, diretor do Departamento de Psicologia da Universidade Nacional de Farmácia.
© Pietro ChekalLarysa, onde trabalha?
Sou enfermeira na clínica ambulatória da aldeia de Sheludkivka. A nossa aldeia tem cerca de três mil habitantes. Kharkiv fica a aproximadamente sessenta quilómetros e a linha da frente a apenas quinze.
A nossa equipa é pequena: um médico de família, duas enfermeiras, um motorista e uma auxiliar. Desde o início da guerra, nenhum de nós partiu, nem os membros da equipa, nem as suas famílias. Ao longo destes anos, permanecemos aqui: a receber pessoas utentes, a fazer voluntariado, a apoiar nos mutuamente.
Mesmo nos momentos mais difíceis, quando os campos e as florestas ao redor ardiam, nunca deixámos de trabalhar.
Como começou a trabalhar na área da saúde mental?
A equipa da Médicos do Mundo começou a visitar a nossa aldeia em 2024. Nessa altura, a nossa médica entrou em licença de maternidade e ficámos sem médico permanente. Os especialistas da Médicos do Mundo asseguraram consultas, trouxeram medicamentos e ofereceram apoio psicológico.
Os habitantes aguardavam estas visitas com entusiasmo: podiam receber cuidados, mas também falar com alguém que realmente os escutava.
Mais tarde, fui convidada a participar nas sessões de formação do programa de saúde mental. Para mim, foi uma revelação: ações claras, práticas, aplicáveis mesmo nas situações mais complexas.
Era exatamente o tipo de conhecimento que faltava até então nos cuidados de saúde primários.
Depois desta formação, senti me muito mais confiante para acompanhar pessoas com sinais de perturbações mentais ou de stress severo.
Que importância dá à saúde mental?
Para mim, é uma forma de fazermos melhor o nosso trabalho.
Somos o primeiro nível do sistema de saúde e, muitas vezes, os primeiros a perceber que algo não está bem com uma pessoa.
Graças a este programa, sei agora como falar com pessoas em sofrimento emocional. Mesmo em tempo de guerra, a saúde mental não pode ser adiada. Pelo contrário, hoje é mais essencial do que nunca.
Volodymyr, qual é a sua experiência e como se envolveu no trabalho sobre saúde mental?
Sou diretor do Departamento de Psicologia da Universidade Nacional de Farmácia. Há dois anos, fomos convidados para uma reunião em Kiev para discutir a integração de um programa de saúde mental nos currículos de formação.
Foi nesse momento que comecei a aprofundar este tema. Quando surgiu a oportunidade de participar pessoalmente na formação em saúde mental oferecida pela Médicos do Mundo, aceitei de imediato.
Como é que os profissionais de saúde recebem o que lhes é ensinado nesta formação?
As pessoas chegam esgotadas, desgastadas pela guerra, por noites sem dormir e por stress constante. Mas, ao fim de um ou dois dias de formação, algo muda.
O que mais me marcou foi ver como os profissionais de saúde regressam dispostos a questionar os seus próprios estereótipos.
Como professor, considero isto fundamental: se os futuros profissionais de saúde aprenderem, desde o início do seu percurso, a falar de saúde mental sem preconceitos, todo o sistema de saúde começará a evoluir.
O nosso programa de apoio à saúde mental na Ucrânia conta com o apoio da ECHO.
