©Christophe Da Silva

Na capital das Filipinas, milhares de trabalhadores desmontam aparelhos eletrónicos usados sem proteção, enfrentando riscos invisíveis para sobreviver. A Médicos do Mundo luta para lhes proporcionar saúde, reconhecimento e um lugar na cidade.

13 de janeiro de 2025

Em Manila, capital das Filipinas, a Médicos do Mundo atua em bairros precários junto dos trabalhadores que desmontam aparelhos eletrónicos usados. Assente numa rede de mediadores comunitários, o projeto cria relações de confiança para sensibilizar estes profissionais para os riscos da atividade.

As mãos de Alexander Amora movem-se rapidamente, mas de forma precisa, sobre uma placa cinzenta arrancada das entranhas de um ar condicionado. Enegrecidas por uma mistura de lama e fuligem, cortam, torcem e extraem pacientemente filamentos de cobre com a precisão de um ourives. “Os ar condicionados são mais demorados e perigosos de desmontar, mas tivemos sorte em conseguir um hoje - é o que dá mais dinheiro graças à grande quantidade de cobre que contém”, explica o trabalhador de Manila, de 51 anos.

Há cerca de 10 anos, todas as manhãs, compra televisores, telemóveis, computadores ou máquinas de lavar, que passa o resto do dia a desmontar com a família para revender aos grossistas do bairro os componentes mais valiosos: metais como alumínio, cobre, prata ou chumbo. “Cada dia é um desafio. Há semanas em que não ganho nada, mas nos melhores dias posso chegar aos 700 pesos (33 euros), o que me permite alimentar a família durante mais de uma semana.”

 

filipinas_3©Christophe Da Silva

 

Trabalho de elevado risco

Todos os dias, milhares de pessoas separam toneladas de resíduos eletrónicos despejados pela cidade ou pelo porto, no meio do tráfego ensurdecedor ou nas estreitas ruelas dos barangays (bairros locais), verdadeiros labirintos de habitações que se estendem à sombra dos arranha-céus cintilantes dos bairros ricos.

É uma atividade informal, mas tolerada pelo Estado filipino devido à ausência de um sistema eficaz de reciclagem de resíduos. Sem um espaço adequado, os trabalhadores desmontam os aparelhos diretamente no chão e sem qualquer proteção, arriscando cortes nas mãos e outros perigos menos evidentes, como problemas cardiovasculares ou lesões músculoesqueléticas.

 

“Estes trabalhadores enfrentam um conjunto de injustiças: além de sofrerem com a poluição exterior, as habitações insalubres e as inundações que atingem regularmente os seus bairros, não têm qualquer reconhecimento oficial ou acesso a serviços sociais, apesar da perigosidade da atividade”, explica Evelyn Pantoja, responsável pelo projeto Saúde e Ambiente da Médicos do Mundo em Manila.

 

A operar nas Filipinas desde 1996, a Médicos do Mundo fez da luta contra as injustiças ambientais uma prioridade. Há mais de 10 anos, a equipa intervém em vários barangays da capital para reforçar a capacidade dos trabalhadores que desmontam equipamentos eletrónicos se protegerem dos riscos associados às condições de trabalho, promovendo sessões de sensibilização e distribuindo luvas e máscaras de proteção.

Para ir mais longe, a Médicos do Mundo lançou, em 2024, uma nova fase centrada nos perigos da intoxicação por chumbo, um metal pesado presente sobretudo nas placas e circuitos eletrónicos. “A longo prazo, a inalação ou ingestão de partículas de chumbo provoca efeitos tóxicos no sistema nervoso, no sangue, no coração, nos rins e no aparelho digestivo”, explica Rosana Milan, médica na clínica Pedro Gil, um dos quatro centros de saúde parceiros da Médicos do Mundo em Manila. “O saturnismo é difícil de detetar e particularmente perigoso para as crianças dos trabalhadores que desmantelam resíduos, que podem apresentar atrasos no desenvolvimento cerebral e do sistema nervoso, com problemas de aprendizagem e de atenção.”

 

Bnn_Filipinas_2©Christophe Da Silva

 

A força de uma rede solidária

Para fazer circular a informação, o projeto da Médicos do Mundo apoia-se em instituições parceiras e numa ampla rede de voluntários comunitários, muitas vezes vizinhos dos trabalhadores que reciclam resíduos eletrónicos e oriundos dos mesmos barangays.

São cerca de 70 pessoas que se revezam para visitar diariamente os trabalhadores e encaminhá-los para os centros de saúde mais próximos. Ao longo das conversas, criam-se laços que, por vezes, despertam vocações, como a de Christina Sancon, que se tornou voluntária no seu bairro para ajudar a mãe doente: “Conhecer melhor as questões de saúde deu-me confiança para informar as pessoas e melhorar a vida no barangay. É um processo que leva tempo - a maioria dos trabalhadores não vê a saúde como uma prioridade.”

Pouco a pouco, os hábitos de trabalho vão mudando. Alexander Amora passou a desinfetar o espaço onde guarda e desmonta os aparelhos eletrónicos e a usar luvas com mais regularidade. “Mesmo que as proteções possam tornar a atividade mais lenta, é importante”, admite. Cada pequena solução, cada ideia sugerida pelos trabalhadores para melhorar as suas condições de trabalho é bem-vinda. “Eles são verdadeiros parceiros”, sublinha Isabel Clarizze Diña, responsável de advocacy. “Identificamos juntos possíveis soluções para melhorar a sua saúde, porque sabemos que as comunidades sabem o que é melhor para elas”.

Junto dos poderes públicos, a equipa defende a evolução das políticas locais e a facilitação do acesso a testes para deteção de intoxicação por chumbo nos centros de saúde, cuidados que continuam a ser demasiado caros para os principais afetados. Luta sobretudo por um maior reconhecimento das especificidades deste trabalho essencial em Manila, através, por exemplo, da criação de espaços dedicados ao exercício da atividade. Para que estas pessoas encontrem uma voz e um lugar na cidade sobrelotada.