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Na Etiópia, na região de Afar, quase todas as meninas são submetidas à mutilação genital feminina poucos dias após nascer. No centro de saúde onde trabalha, a parteira Fatuma Ebad testemunha diariamente a dor silenciosa que esta prática impõe às mulheres, mas também os primeiros sinais de mudança que começam, pouco a pouco, a abrir espaço à esperança.

09 de fevereiro de 2026

A mutilação genital feminina é uma realidade profundamente enraizada em muitas comunidades, pelo que é necessário continuar a recordar a urgência de proteger meninas e mulheres desta grave violação dos direitos humanos. No terreno, profissionais como Fatuma Ebad vivem esse desafio todos os dias.

 

O testemunho de Fatuma

“Chamo me Fatuma Ebad e trabalho como parteira na Médicos do Mundo, na região etíope de Afar. Nasci e cresci aqui, por isso conheço a língua, a cultura e as dificuldades que as mulheres enfrentam nesta região. Antes de integrar a Médicos do Mundo, trabalhei durante dois anos num centro de saúde do governo. Quando soube que a organização tinha um forte enfoque na assistência a mulheres e crianças, percebi imediatamente que era aqui que eu pertencia porque este tema é também a minha paixão.

No centro de saúde onde trabalho, testemunhámos mudanças extraordinárias no último ano. Antes de a Médicos do Mundo começar a atuar aqui, apenas cerca de cinco mães por mês vinham dar à luz ao centro. Esse número aumentou para cerca de vinte partos mensais. Esta evolução não aconteceu de um dia para o outro: trabalhámos arduamente com os nossos ‘mobilizadores comunitários’ e com as parteiras tradicionais.

 

O nosso objetivo é criar, nas comunidades locais, consciência sobre a importância de ter o bebé num centro de saúde. Também distribuímos gratuitamente medicamentos e outros itens essenciais para o pós parto e asseguramos que as futuras mães possam ser transportadas até às unidades de saúde.

 

Antes de a Médicos do Mundo iniciar o seu trabalho aqui, muitas famílias não sabiam como obter medicamentos e a maioria não os podia pagar. Graças à Médicos do Mundo, o nosso armazém está agora abastecido com os medicamentos essenciais para mães e crianças. Isso salvou vidas.”

 

As consequências drásticas da mutilação genital feminina

Apesar dos avanços alcançados, persistem desafios profundos. Na região de Afar, a mutilação genital feminina (MGF) continua a ser amplamente praticada: quase todas as meninas são submetidas ao procedimento nos primeiros três dias de vida. Mais tarde, quando uma mulher afetada entra em trabalho de parto, o canal de parto está frequentemente fechado, o que provoca dores intensas.

 

“Nesses casos, temos de realizar uma pequena intervenção cirúrgica, um procedimento muito doloroso. A nossa cultura não permite que as mulheres gritem durante o parto”, conta Fatuma.

 

Sofrem, portanto, em silêncio. “Antes víamos as formas mais graves de MGF, sobretudo o tipo 3; hoje, observamos maioritariamente os tipos 1 e 2, menos severos, mas ainda profundamente lesivos. Apesar de lenta, a mudança está a acontecer.” Para apoiar este processo, a Médicos do Mundo promove encontros com líderes comunitários, líderes religiosos e grupos de mulheres, sensibilizando-os para os perigos da MGF e para os benefícios do planeamento familiar.

 

Sinais que dão esperança

Apesar destes desafios, Fatuma sente que muito mudou. As mães conhecem agora a equipa e sabem que podem confiar nos cuidados prestados; por isso, vêm regularmente às consultas de pré-natais. “Há esperança”, afirma. Mas reforça que é preciso continuar a trabalhar para transformar mentalidades, sobretudo no que diz respeito ao fim da mutilação genital feminina e à melhoria do planeamento familiar.

“Adoro o meu trabalho, porque ajudar mães e crianças dá me uma verdadeira sensação de realização”, partilha. E deixa um agradecimento a todas as pessoas que apoiam este trabalho, lembrando que, juntos, é possível salvar vidas e mudar atitudes.

 

O que é a mutilação genital feminina?

A MGF inclui todos os procedimentos que envolvem a remoção parcial ou total dos órgãos genitais externos femininos, ou outras lesões nos genitais femininos, por razões não médicas. Não traz qualquer benefício para a saúde e constitui uma violação grave dos direitos humanos de meninas e mulheres. 

A Organização Mundial da Saúde classifica a MGF em quatro tipos principais:

  • Tipo I – remoção parcial ou total do clitóris e/ou do prepúcio.
  • Tipo II – remoção parcial ou total do clitóris e dos lábios menores, com ou sem remoção dos lábios maiores.
  • Tipo III – estreitamento da abertura vaginal através de sutura ou selagem dos lábios (infibulação).
  • Tipo IV – outras práticas lesivas (picar, perfurar, incisar, raspar ou cauterizar).

 

Uma prática global que afeta mais de 230 milhões de meninas e mulheres

De acordo com o relatório global da UNICEF de 2024, mais de 230 milhões de meninas e mulheres em todo o mundo já foram submetidas a MGF - um aumento de 30 milhões face a 2016. 

A distribuição global é desigual:
•    África: mais de 144 milhões de casos
•    Ásia: mais de 80 milhões
•    Médio Oriente: mais de 6 milhões
•    Também ocorre em pequenas comunidades da diáspora em todo o mundo, incluindo Europa e América do Norte. 

A MGF é praticada sobretudo entre a infância e os 15 anos de idade, podendo causar hemorragias graves, infeções, dores crónicas, complicações no parto e consequências psicológicas profundas.

 

E em Portugal?

A MGF não é tradicionalmente praticada em Portugal, mas ocorre entre comunidades migrantes originárias de países onde a prática é comum. Dados oficiais mostram que existem meninas e mulheres em risco ou já submetidas à prática, sobretudo nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, devido à maior presença de comunidades provenientes de países de elevada prevalência.