06 de março de 2026
Aliou* tem 31 anos e chegou ao EECIT – Espaço Equiparado a Centro de Instalação Temporário do Aeroporto de Lisboa em novembro de 2025. Este é um espaço onde cidadãos estrangeiros em situação irregular em Portugal ficam retidos temporariamente enquanto aguardam uma decisão das autoridades sobre o seu estatuto, um lugar marcado pela incerteza e pela possibilidade sempre presente de ser enviado de volta.
É ali que Aliou permanece hoje, ainda à espera de uma resposta. Ali passou também o Natal e o Ano Novo, longe de tudo o que conhecia e sem saber o que o futuro lhe reservará.
Uma juventude sem rede de apoio
Aliou nasceu no Senegal, cresceu sem pai e com uma infância marcada pela ausência de estabilidade.
Recorda ter visto entrar e sair da casa da mãe vários homens diferentes, sem nunca encontrar um verdadeiro sentido de proteção ou pertença.
Aos 18 anos, sentindo que estava completamente sozinho, decidiu partir em busca de segurança e de uma vida noutro lugar.
Líbia: fome, prisão e trabalhos forçados
O primeiro destino foi também o mais duro.
Na Líbia, enfrentou fome extrema e acabou detido num campo de trabalhos forçados, onde viveu condições profundamente desumanas.
Só mais tarde conseguiu escapar e continuar o percurso rumo à Europa.
Itália: trabalho árduo e exploração
Chegado a Itália, apresentou o seu primeiro pedido de asilo.
Trabalhou na agricultura e na pecuária, entre a Sicília e Parma.
Contudo, apesar do esforço diário, viveu situações de exploração laboral e nunca encontrou a estabilidade que procurava.
França e a deportação para o Senegal
Tentou reconstruir-se em França, mas, sem documentos válidos - e tendo o pedido de asilo sido feito noutro país - acabou detido e deportado para o Senegal.
Este retorno forçado foi um momento de grande desorientação.
Sem família, sem referências e enfrentando dificuldades em assumir a sua orientação sexual num contexto social hostil, percebeu que não poderia construir ali uma vida segura. Juntou o que conseguiu e decidiu tentar novamente chegar à Europa.
Portugal: um pouco de descanso, mesmo no meio da incerteza
Depois de algum tempo de ter chegado a Portugal, Aliou acabou no EECIT, onde permanece. Ali encontrou, pela primeira vez em muito tempo, um mínimo de estabilidade: um teto, privacidade, refeições e, sobretudo, um espaço onde não é julgado pela sua história - mesmo estando num local de retenção, onde a espera é longa e cada dia pode trazer uma decisão determinante para o futuro.
No âmbito do projeto Embarque na Saúde, da Médicos do Mundo, tem recebido acompanhamento regular e cuidados de saúde por parte da nossa equipa. Numa fase marcada pela ansiedade, pelo medo e pela incerteza, este apoio tem feito uma enorme diferença.
As suas palavras mostram isso:
“Aqui tenho apoio, tenho escuta, tenho ajuda. Posso falar. Vejo a enfermeira três vezes por semana; às vezes é só para conversar, mas é tudo o que eu preciso. Não há necessidade de juntar stress a uma situação que por si só já é stressante, e a Médicos do Mundo deu me isso.”
Mesmo num espaço marcado pela incerteza e pela possibilidade real de ser enviado de volta para o Senegal, o EECIT representa para Aliou uma pausa - breve, provisória, mas essencial - num percurso marcado por violência, rejeição e medo.
É ali, ainda hoje, que espera a decisão que poderá permitir-lhe recomeçar a vida.
*Nome fictício por questões de segurança.
