04 de novembro de 2026
Nos últimos dias, a situação de segurança deteriorou-se significativamente nos arredores de Port-au-Prince. A 18 de outubro, um veículo da Força de Repressão de Gangues (FRG) foi atacado na vila de Santo, na comuna de Croix-des-Bouquets, no Oeste do país. Desde então, quatro técnicos militares salvadorenhos permanecem desaparecidos.
As operações de busca desencadearam confrontos intensos com grupos armados da Planície de Cul-de-Sac, a nordeste da capital, enquanto os habitantes foram instados a permanecer em casa. A 24 de outubro, foram encontrados quatro corpos carbonizados nas proximidades da cidade. O Presidente de El Salvador negou que se tratasse dos militares desaparecidos, embora a identidade das vítimas continue por confirmar.
Poucos dias depois, o Governo de El Salvador anunciou o destacamento de mais de 2.000 militares adicionais para o país, aumentando os receios de uma intensificação dos combates em zonas densamente povoadas.
As consequências desta escalada de violência fazem-se sentir diariamente entre a população civil. Em Port-au-Prince, multiplicam-se os casos de pessoas feridas por disparos de armas de fogo ou por explosões de drones, incluindo mulheres e crianças. Nas zonas altas de Kenscoff, nos arredores da cidade, novos incidentes prolongam uma série de ataques que, no final de agosto, causaram pelo menos 47 mortos e mais de 50 raptos.
Ao mesmo tempo, o acesso aos cuidados de saúde torna-se cada vez mais difícil. Estradas e pontes bloqueadas, deslocações de elevado risco e o encerramento de estruturas de saúde de proximidade obrigam muitas pessoas feridas a percorrer longas distâncias até aos poucos hospitais ainda em funcionamento.
Violência, insegurança e restrições humanitárias
A deterioração da situação de segurança afeta também as organizações humanitárias que procuram prestar apoio às populações.
A 29 de outubro, o Conselho Norueguês para os Refugiados (NRC) anunciou o assassinato de dois dos seus colaboradores em Port-au-Prince. A Médicos do Mundo manifesta a sua profunda consternação perante esta tragédia e apresenta as suas condolências e solidariedade ao NRC e às famílias enlutadas.
Num contexto de violência persistente, a proteção do espaço humanitário é essencial para assegurar a continuidade dos serviços básicos e responder às necessidades urgentes das populações mais vulneráveis.
“Todos os dias, somos confrontados com a difícil escolha entre garantir a segurança das nossas equipas e assegurar o acesso das populações aos cuidados de saúde. São as pessoas mais vulneráveis, especialmente as mulheres e as sobreviventes de violência, que mais sofrem com este isolamento. O trágico assassinato de dois colegas trabalhadores humanitários abalou-nos profundamente.” - Adis Kajic, coordenador-geral da Médicos do Mundo no Haiti
O Grand-Sud sob as águas
Enquanto a violência continua a agravar-se na região da capital, o sul do país enfrenta uma nova emergência. Desde 24 de outubro, chuvas torrenciais atingem os departamentos de Sud, Nippes e Grand'Anse.
Segundo a Agência das Nações Unidas para a Coordenação dos Assuntos Humanitários (OCHA, na sigla em inglês), quatro pessoas morreram, dois pescadores continuam desaparecidos e 1.920 famílias foram afetadas apenas em Nippes.
Mais de 2.500 habitações ficaram inundadas, assim como o Hospital de Corail e o Centro de Saúde de Chambellan (Grand'Anse). As chuvas provocaram danos significativos nas infraestruturas, cortando estradas e isolando comunidades inteiras, numa altura em que as reservas de emergência se encontram praticamente esgotadas.
A região acolhe atualmente cerca de 407 mil pessoas deslocadas pela violência em Port-au-Prince e já enfrentava uma situação de crise alimentar. Contudo, a insegurança continua a dificultar o encaminhamento da ajuda humanitária para o sul do país, enquanto aumentam os riscos de doenças associadas à contaminação da água.
A Médicos do Mundo apela a:
- Todas as partes envolvidas na violência: que garantam a proteção da população civil, dos profissionais de saúde, das estruturas de saúde e dos trabalhadores humanitários, em conformidade com o Direito Internacional Humanitário.
- Autoridades haitianas e atores internacionais: que assegurem um acesso humanitário seguro, contínuo e sem entraves, incluindo às zonas afetadas pelas cheias na região do Grand-Sud.
- Doadores e Estados: que mobilizem financiamento de emergência à altura de uma dupla crise humanitária que continua, com demasiada frequência, esquecida pela comunidade internacional.
