©Moath Abu Al-Laban

Novo relatório da Médicos do Mundo mostra como a degradação das condições de vida continua a comprometer a saúde e a sobrevivência da população palestiniana em Gaza.

Três anos após o início do genocídio em Gaza e quase um ano após o anúncio do cessar-fogo, a população palestiniana continua a enfrentar condições de vida catastróficas que comprometem diariamente a sua saúde, dignidade e sobrevivência. Um novo relatório da Médicos do Mundo documenta o impacto duradouro da desnutrição, das restrições no acesso a cuidados de saúde, dos deslocamentos forçados e da degradação das condições de vida na Faixa de Gaza.

O relatório mostra como a degradação das condições de vida, a desnutrição e as restrições no acesso a cuidados de saúde continuam a comprometer a saúde e a sobrevivência da população palestiniana. Embora os bombardeamentos e a violência sejam hoje menos visíveis, os ataques do exército israelita continuam e os efeitos da guerra permanecem marcados nos corpos e nas vidas das pessoas.

 

O impacto na saúde da população palestiniana

Os dados recolhidos pela Médicos do Mundo revelam uma situação alarmante.

84% das crianças com menos de cinco anos estiveram doentes nos últimos três meses, sofrendo de diarreia, febre, problemas respiratórios ou doenças de pele. Ao mesmo tempo, 93% das mulheres grávidas e lactantes apresentam sintomas de anemia, frequentemente associados à desnutrição, enquanto apenas 17% têm acesso a uma alimentação suficientemente diversificada para responder às suas necessidades nutricionais.

Desde janeiro de 2026, as equipas da Médicos do Mundo trataram 458 crianças e 1.533 mulheres grávidas e lactantes por desnutrição.

A degradação das condições de vida, a falta de água potável, saneamento e condições de higiene, bem como as restrições no acesso a cuidados de saúde, estão diretamente ligadas a estes resultados. 93% das pessoas inquiridas vivem em abrigos insalubres, favorecendo a propagação de doenças evitáveis e comprometendo a sua saúde.

 

Deslocamentos forçados e ajuda humanitária limitada

As restrições à entrada de ajuda humanitária e os deslocamentos repetidos continuam a marcar o quotidiano das famílias.

Desde outubro de 2023, 97% dos agregados familiares inquiridos foram forçados a deslocar-se pelo menos uma vez, tendo quase metade sido deslocada entre cinco e dez vezes.

Estes deslocamentos repetidos obrigam as famílias a viver em condições insuportáveis, ao mesmo tempo que as privam dos cuidados de saúde necessários para prevenir e tratar doenças.

Ao mesmo tempo, 42% das pessoas inquiridas não conseguiram aceder a cuidados de saúde nos três meses anteriores. O encerramento de infraestruturas de saúde, a deslocação de profissionais de saúde e a escassez de medicamentos continuam a fragilizar um sistema já profundamente debilitado. Como consequência, doenças que poderiam ser prevenidas ou tratadas numa fase precoce estão a agravar-se, comprometendo gravemente a saúde da população palestiniana.

 

Uma violência menos visível, mas não menos devastadora

As equipas da Médicos do Mundo testemunham uma forma de violência menos visível: a violência infligida a uma população cuja saúde continua a deteriorar-se porque não existem condições para prevenir doenças, aceder a cuidados de saúde e recuperar.

Ao dificultar o acesso da população à alimentação, à água, aos cuidados de saúde e aos meios necessários para reconstruir as suas vidas, o bloqueio da ajuda humanitária imposto pelo Estado de Israel contribui para o genocídio e para a destruição das condições essenciais à vida e à saúde em Gaza.

As consequências vão muito além da saúde física. As necessidades de apoio em saúde mental e apoio psicossocial mais do que duplicaram, passando de cerca de 485 mil pessoas antes da guerra para mais de um milhão em 2025.

 

"Os meus filhos mudaram. Estão mais assustados, preocupam-se com a comida e não se sentem em segurança. Contam cada dentada que dão e começam a calcular quanto pão devemos comer por dia. Perderam a sensação de que o amanhã será normal. Também sinto que mudei. Antes pensava na escola, na família e no futuro. Agora, a maior parte dos meus pensamentos gira em torno de encontrar comida, água e abrigo, e de manter os meus filhos em segurança perante um futuro incerto", refere uma paciente entrevistada pelas equipas da Médicos do Mundo em Gaza.

 

Para a Médicos do Mundo, estas persistentes condições humanitárias e de saúde fazem parte da destruição em curso da população palestiniana e do genocídio que continua.

 

Não basta um cessar-fogo de fachada

Três anos após o início do genocídio em Gaza, a Médicos do Mundo considera que a comunidade internacional não se pode resignar a um cessar-fogo de fachada.

É necessária uma ação concreta para garantir a proteção da população civil, assegurar a entrada imediata e sem restrições da ajuda humanitária e restaurar o acesso a alimentos, medicamentos e cuidados de saúde.

A organização defende igualmente o apoio à reabilitação sustentável dos serviços essenciais em Gaza, liderada pelos próprios palestinianos, como condição indispensável para a recuperação da dignidade, da saúde e das condições de vida da população.

 

Consulte abaixo o relatório na íntegra (disponível em inglês).