© Caroline Thirion

A epidemia de Ébola em curso no leste da República Democrática do Congo (RDC) é a que provocou o maior número de mortes alguma vez registado no país. A 17 de agosto, contabilizavam-se já 2.420 mortes num total de 5.105 casos confirmados, o que corresponde a uma taxa de letalidade de 47%. Enquanto a epidemia continua a alastrar a um ritmo acelerado, as equipas da Médicos do Mundo mantêm-se mobilizadas. 

31 de agosto de 2026

Entrevista com David Montano Inturias, coordenador-geral da Médicos do Mundo na província do Sul-Kivu, RDC. 

 

Qual é a situação atual da epidemia no leste da RDC? 

Muito preocupante. 

Observa-se uma propagação muito rápida da epidemia. Na semana passada, registávamos cerca de uma centena de novas infeções por dia, o que corresponde a um novo caso a cada 15 minutos, aproximadamente. No total, contabilizam-se mais de 5.100 casos confirmados e 2.420 óbitos devido à doença provocada pelo vírus Ébola, tornando esta, desde já, a epidemia que provocou o maior número de mortes alguma vez registado na RDC. 

Basta comparar: a última grande epidemia de Ébola no país, que ocorreu entre 2018 e 2020, causou 2.300 mortes ao longo de dois anos. A atual epidemia provocou mais vítimas em apenas três meses. 

Para além do aumento do número de casos, verifica-se também uma expansão geográfica da epidemia, o que a torna ainda mais difícil de controlar. Atualmente, para além da província de Ituri, onde se localiza o epicentro da epidemia, outras cinco províncias são afetadas: Kivu do Sul, Kivu do Norte, Tshopo, Haut-Uélé e Bas-Uélé. 

 

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Quais são os maiores desafios enfrentados pelos profissionais de saúde e pelas organizações humanitárias? 

Antes de mais, é importante recordar que, até à data, não existe qualquer tratamento ou vacina com eficácia comprovada contra a variante Bundibugyo, responsável por esta 17.ª epidemia de Ébola na RDC. Esta realidade limita drasticamente os meios disponíveis para conter o surto, daí a importância crucial das ações de sensibilização comunitária e do reforço das medidas de triagem e prevenção de infeções nas estruturas de saúde. 

Também não se deve subestimar o impacto do contexto humanitário e de segurança em que esta epidemia ocorre, uma vez que este coloca desafios significativos. A guerra não parou com a epidemia de Ébola. Confrontos armados continuam a ocorrer regularmente em zonas próximas ou diretamente afetadas pela epidemia, restringindo o acesso dos atores de saúde e humanitários a essas áreas e provocando novos deslocamentos populacionais. 

Estes movimentos de pessoas e as condições de sobrelotação em que muitas pessoas deslocadas são forçadas a viver favorecem a aceleração da transmissão do vírus. 

Por fim, persiste igualmente a desconfiança das populações em relação à doença, aos intervenientes na resposta e às estruturas de saúde. Muitas pessoas evitam os centros de saúde por receio de serem aí infetadas. Como resultado, poderão também aumentar as mortes evitáveis, associadas a outras doenças não tratadas ou tratadas demasiado tarde. 

No Kivu do Sul, por exemplo, e particularmente na capital, Bukavu, decorre em simultâneo uma epidemia de cólera. Se as pessoas com cólera não receberem tratamento logo aos primeiros sintomas, correm o risco de ver o seu estado agravar-se de forma severa, podendo inclusivamente morrer.

 


Quais são as ações prioritárias que devem ser implementadas para conseguir controlar a epidemia? 

É necessário reforçar o acompanhamento dos contactos identificados, que atualmente se situa entre os 80% e os 85%. Isto leva a crer que a epidemia continua a propagar-se sem ser detetada em determinadas zonas. 

Além disso, apesar dos esforços desenvolvidos pelos profissionais de saúde, autoridades e organizações humanitárias, a cobertura das infraestruturas de saúde apoiadas em medidas de prevenção e controlo de infeções continua a ser demasiado reduzida, sobretudo nas zonas fora do epicentro da epidemia. 

Estas medidas, que incluem triagem e circuitos adaptados para os doentes, capacitação dos profissionais de saúde, disponibilização de equipamentos de proteção individual e implementação de protocolos de desinfeção, são indispensáveis para a resposta à epidemia de Ébola. Atualmente, os meios mobilizados continuam a ser insuficientes face à gravidade da ameaça. 

É particularmente o caso do Kivu do Sul, onde o número de casos confirmados se tem mantido relativamente contido até ao momento. Como consequência, verifica-se uma menor atenção por parte dos financiadores e um nível de financiamento insuficiente para combater a epidemia nesta província. 

Contudo, perante uma epidemia desta dimensão e tendo em conta o contexto particularmente frágil e volátil da RDC, um novo surto pode surgir a qualquer momento e em qualquer lugar. É fundamental investir de forma significativa na prevenção em todas as zonas vizinhas do epicentro, de modo a travar a progressão da doença e conter a propagação do vírus. 

 

A nossa resposta no Kivu do Sul 

  • Mais de 580.000 pessoas sensibilizadas para as medidas de prevenção contra o Ébola; 

  • Mais de 70 mensagens de prevenção difundidas através de rádios locais; 

  • 96 profissionais de saúde formados em triagem de casos suspeitos e primeiros socorros psicológicos; 

  • 24 infraestruturas de saúde equipadas com material de proteção e prevenção de infeções; 

  • Apoio à gratuitidade dos cuidados de saúde para todos os doentes em quatro infraestruturas de saúde em Miti-Murhesa (zona de saúde onde foram notificadas ocorrências de Ébola); 

  • Construção de quatro salas de isolamento em centros de saúde para acolhimento de casos suspeitos de Ébola.