No Dia Nacional do Psicólogo, conversámos com Carina Costa, psicóloga do projeto Like ME and YOU, da Médicos do Mundo, sobre a importância de falar de saúde mental desde cedo, o papel da educação por pares e os desafios que crianças e jovens enfrentam numa fase decisiva do seu desenvolvimento.

04 de setembro de 2026

Porque é importante falar de saúde mental com crianças e jovens desde cedo?

Falar de saúde mental com crianças e jovens desde cedo é tão vital quanto ensinar hábitos básicos de higiene física ou nutrição, pois é na infância e na adolescência que se constrói a estrutura emocional para o resto da vida. Quando abordamos este tema desde tenra idade, estamos em primeiro lugar a promover a literacia emocional, ajudando as crianças a dar nome às suas emoções - como a frustração, o medo ou a tristeza - para que aprendam a regulá-las em vez de as reprimir. 

Em segundo lugar, ao tratar a saúde mental com naturalidade, desmistificamos o sofrimento psicológico e combatemos o estigma, garantindo que os jovens cresçam a saber que pedir ajuda é um ato de coragem e não um sinal de fraqueza. Além disso, vivemos numa era em que as exigências escolares, sociais e digitais produzem uma pressão sem precedentes, tornando essencial dotar os mais novos de ferramentas de resiliência para lidarem com o insucesso e a incerteza. 

Por fim, sabendo que a maioria das perturbações emocionais e psicológicas manifesta os seus primeiros sinais antes da idade adulta, falar abertamente sobre o assunto permite uma identificação precoce e uma intervenção atempada, evitando que pequenas dificuldades se transformem em quadros graves e garantindo um desenvolvimento muito mais saudável e equilibrado.

 

O projeto Like ME and YOU trabalha com jovens dos 10 aos 14 anos. Quais são os principais desafios ou preocupações que observa atualmente nesta faixa etária?

Nesta faixa etária dos 10 aos 14 anos, os jovens atravessam uma fase crítica de transição, e o principal desafio que observamos é a enorme pressão em torno da construção da identidade e da aceitação social. É neste momento que o foco deles muda da família para os pares, surgindo uma forte necessidade de pertencer a um grupo, o que muitas vezes vem acompanhado de inseguranças com a imagem corporal e de uma constante comparação com os outros.

Esta vulnerabilidade é fortemente amplificada pelo mundo digital, já que é por volta destas idades que a maioria entra no universo dos smartphones e das redes sociais. Isso expõe-nos a desafios como a procura por validação imediata, a exposição ao cyberbullying e a uma pressão constante para corresponder a expectativas irrealistas.

A par disto, há um aumento da exigência escolar e social que gera níveis elevados de ansiedade e frustração, numa altura em que eles ainda estão a aprender a gerir emoções complexas. Por todas estas razões, a abordagem do Like ME and YOU é tão determinante: ao apostar na educação por pares, permitimos que estes jovens falem abertamente sobre o que sentem com quem realmente os entende, promovendo a empatia e quebrando o isolamento num momento em que eles mais precisam de apoio.

 

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O Like ME and YOU assenta na metodologia de educação por pares. Em que consiste esta abordagem e porque pode ser particularmente eficaz junto dos jovens?

A metodologia de educação por pares consiste em capacitar jovens para que sejam eles próprios a falar de saúde mental com outros jovens. Em vez de uma lógica vertical, onde o adulto ensina, temos uma comunicação horizontal, de igual para igual, baseada na partilha de linguagens e vivências comuns.

Esta abordagem é extremamente eficaz por três motivos: quebra barreiras, porque os jovens não se sentem julgados como se sentem por uma figura de autoridade; aumenta a confiança, pois a mensagem é transmitida na sua própria linguagem e de forma autêntica; e normaliza o pedido de ajuda, mostrando que falar de emoções é algo natural entre colegas, o que transforma o grupo num espaço seguro de apoio mútuo.

 

De que forma o desenvolvimento de competências emocionais pode ajudar os jovens a lidar melhor com desafios do dia a dia e a prevenir comportamentos de risco?

O desenvolvimento de competências emocionais funciona como uma espécie de "kit de sobrevivência" para os jovens, dando-lhes ferramentas para processar o que sentem antes de reagirem por impulso. Quando um jovem aprende a identificar, nomear e regular emoções como a raiva, a ansiedade ou a frustração, ganha capacidade de pausa - ou seja, deixa de agir no calor do momento e passa a conseguir tomar decisões mais ponderadas perante os problemas do dia a dia.

No que toca à prevenção de comportamentos de risco - seja o consumo de substâncias, a violência, o autoisolamento ou a exposição a perigos online -, estas competências são determinantes. Na maioria das vezes, os comportamentos de risco surgem como uma tentativa disfuncional de anestesiar a dor emocional ou de procurar aceitação num grupo. Um jovem com inteligência emocional desenvolvida tem uma autoestima mais sólida, sabe dizer "não" à pressão dos colegas e consegue procurar estratégias de regulação saudáveis e pedir ajuda quando precisa, em vez de recorrer a atalhos perigosos para gerir o seu sofrimento.

 

Que impacto pode ter o envolvimento ativo dos jovens na promoção da saúde e do bem-estar junto dos seus colegas?

O envolvimento ativo dos jovens transforma-os de meros recetores de informação em verdadeiros agentes de mudança. Quando são os próprios jovens a liderar conversas sobre saúde e bem-estar, o primeiro grande impacto é o aumento da recetividade e da confiança: as mensagens ganham uma legitimidade e uma relevância imediata que nenhum adulto consegue replicar, porque são transmitidas por quem partilha a mesma realidade e os mesmos desafios diários.

Além disso, esta participação ativa gera um efeito multiplicador de proteção mútua. Os jovens que promovem a saúde mental tornam-se "antenas" atentas no seu meio, capazes de identificar mais cedo sinais de sofrimento psicológico nos seus colegas e de os encaminhar para apoio. Isto desmantela o estigma a partir de dentro, cria uma cultura de empatia nas escolas e comunidades e faz com que o pedido de ajuda passe a ser visto não como uma fraqueza, mas como uma atitude natural e valorizada entre pares.

 

Como tem sido a experiência de trabalhar em contexto escolar e em articulação com a comunidade educativa?

Trabalhar em contexto escolar e em articulação com a comunidade educativa tem sido uma experiência profundamente enriquecedora e reveladora. A escola é o ecossistema onde os jovens passam a maior parte do seu tempo e onde as dinâmicas sociais e emocionais mais se manifestam, pelo que estar no terreno permite-nos intervir no momento e no local onde as coisas realmente acontecem.

Esta articulação tem o seu grande valor na criação de uma rede de suporte integrada. Nenhum projeto de saúde mental funciona de forma isolada: para ter impacto real, precisamos do envolvimento ativo de professores, psicólogos escolares e encarregados de educação. Quando toda a comunidade fala a mesma linguagem e está alinhada na importância do bem-estar emocional, cria-se uma malha de proteção muito mais forte, onde é mais fácil identificar sinais de alerta precocemente e desconstruir o estigma associado ao sofrimento psicológico.

O maior desafio - e também a maior conquista - é conseguir que a saúde mental deixe de ser vista como um tema pontual ou uma "tarefa extra" e passe a ser integrada de forma natural na cultura e no quotidiano do ambiente escolar.

 

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O que tem aprendido com os jovens que participam no projeto?

O que mais tenho aprendido com estes jovens é que eles têm uma capacidade incrível de empatia e uma enorme vontade de falar sobre o que sentem - só precisam de encontrar um espaço onde se sintam verdadeiramente seguros e não julgados.

Aprendi que eles estão muito mais atentos do que muitas vezes lhes damos crédito. Têm uma sensibilidade apurada para perceber quando um colega não está bem e, quando lhes damos as ferramentas certas, revelam uma maturidade surpreendente para apoiar os outros.

Eles mostram-nos diariamente que, ao contrário de gerações anteriores, estão muito mais disponíveis para desconstruir tabus, aceitar a vulnerabilidade e construir uma cultura onde cuidar da mente é tão natural como cuidar do corpo.

 

Num momento em que se fala cada vez mais de saúde mental, o que considera essencial para garantir que os jovens têm acesso a apoio adequado e a ambientes que promovam o seu bem-estar?

Para garantir um acesso verídico a apoio adequado e a ambientes promotores de bem-estar, considero fundamentais três pilares essenciais:

Em primeiro lugar, a proximidade e acessibilidade dos serviços. Não basta existirem respostas de saúde mental; elas têm de estar presentes nos locais onde os jovens passam a maior parte do tempo - nas escolas e na comunidade -, garantindo um acompanhamento rápido, gratuito e sem barreiras financeiras ou burocráticas.

Em segundo lugar, a capacitação de toda a rede de suporte. É fundamental dotar quem lida diretamente com os jovens - famílias, professores e os próprios colegas - de literacia em saúde mental, para que saibam reconhecer precocemente os sinais de sofrimento e saibam acolher com empatia, sem desvalorizar nem estigmatizar.

Por fim, a integração da participação jovem na criação de ambientes seguros. Promover o bem-estar exige ouvir os mais novos e envolvê-los na construção das respostas, garantindo que os contextos escolares e digitais são espaços de pertença, onde a prevenção do bullying é prioritária e onde pedir ajuda é visto como um ato natural e seguro.

 

Que mensagem gostaria de deixar aos jovens, às famílias e à comunidade neste Dia Nacional do Psicólogo?

Neste Dia Nacional do Psicólogo, a mensagem que gostaria de deixar passa por três pontos simples:

Aos jovens, que saibam que não têm de carregar tudo sozinhos. Sentir ansiedade, incerteza ou tristeza não é um sinal de fraqueza nem uma falha pessoal. Pedir ajuda e falar sobre o que se sente é uma das decisões mais corajosas e inteligentes que podem tomar por vocês próprios.

Às famílias e à comunidade, lembrem-se de que a escuta e a validação emocional são a melhor forma de prevenção. Mais do que ter respostas perfeitas para tudo, o fundamental é criar espaços em casa, nas escolas e na sociedade onde os mais novos se sintam seguros para partilhar as suas fragilidades sem medo de serem julgados.

Como sociedade, que continuemos a normalizar o cuidado com a saúde mental da mesma forma que cuidamos da saúde física. O acompanhamento psicológico não deve ser um recurso de última hora quando se atinge o limite, mas sim uma ferramenta contínua de promoção de bem-estar, autoconhecimento e construção de um futuro mais saudável para todos.

 

 

Sobre o projeto Like ME and YOU

 

O Like ME and YOU é um projeto da Médicos do Mundo, implementado no concelho de Paredes e dirigido a jovens dos 10 aos 14 anos. Assente na metodologia de educação por pares, promove a saúde mental, o desenvolvimento de competências emocionais e a prevenção de doenças não transmissíveis (DNT) e de comportamentos de risco, capacitando os próprios jovens para se tornarem agentes de mudança junto dos seus colegas.

Ao longo de 42 meses, são desenvolvidas atividades em contexto escolar e comunitário, incluindo oficinas temáticas, ações de capacitação e momentos de participação ativa dos jovens, abordando temas como saúde mental, literacia em saúde, estilos de vida saudáveis, autoestima, empatia e cidadania ativa.

A iniciativa é desenvolvida em parceria com a Câmara Municipal de Paredes e a Escola Básica e Secundária de Paredes, com o apoio da AstraZeneca, no âmbito do Young Health Programme, um projeto focado na prevenção de DNT entre jovens dos 10 aos 24 anos e que combina educação, advocacy e desenvolvimento de lideranças juvenis para promover escolhas saudáveis, ambientes protetores e ação climática pela saúde.