©Álex Zapico/Médicos del Mundo

A Médicos do Mundo alerta para o risco de as marcas invisíveis dos sismos se transformarem numa segunda emergência, caso não seja garantido acesso a apoio psicológico e psicossocial.

Um mês após os terramotos que devastaram várias zonas de Caracas e La Guaira, na Venezuela, as operações de busca e salvamento aproximam-se do fim. Mas, para milhares de pessoas afetadas pela catástrofe, a emergência está longe de ter terminado.

À medida que a atenção se concentra na reconstrução de casas e infraestruturas, a Médicos do Mundo alerta para uma crise menos visível, mas igualmente urgente: a saúde mental.

Os terramotos provocaram o colapso de edifícios, separaram famílias e obrigaram muitas pessoas a abandonar as suas casas. Deixaram também um profundo impacto emocional que começa agora a tornar-se mais evidente. Ansiedade, medo, insónia, perturbação de stress pós-traumático e processos de luto ainda por concluir são algumas das situações identificadas diariamente pelas equipas da organização no terreno.

A resposta à emergência entrou numa nova fase. Depois de assegurados os cuidados imediatos e o tratamento das lesões mais graves, o desafio passa por evitar que as consequências psicológicas da catástrofe se prolonguem no tempo e por garantir o acesso continuado aos cuidados de saúde, incluindo serviços de saúde mental e apoio psicossocial, frequentemente relegados para segundo plano quando a atenção mediática diminui.

 

Os socorristas também precisam de apoio

O impacto emocional da catástrofe não afeta apenas quem perdeu familiares, habitação ou meios de subsistência. As equipas de socorro começam também a evidenciar sinais de desgaste após semanas de trabalho em condições extremamente exigentes.

 

"Começo a notar que já existe uma grande necessidade de apoio emocional devido ao stress pós-traumático. A fadiga emocional começa a fazer-se sentir", reconhece Germán Bello, socorrista.

 

©Álex Zapico/Médicos del Mundo

 

"Sabemos que ainda temos de continuar por mais algum tempo. Não podemos quebrar porque ainda há muito por fazer", afirma Manuel Rojas, de 26 anos.

 

Para profissionais envolvidos na resposta a catástrofes, existe frequentemente uma dificuldade acrescida: a perceção de que devem manter-se fortes para continuar a ajudar outras pessoas.

 

"Os socorristas e os profissionais de saúde demonstram frequentemente grande resistência em reconhecer o seu próprio sofrimento, porque sentem que não há tempo para cuidar de si próprios. No entanto, precisamente por isso, encontram-se entre os grupos com maior risco de desenvolver perturbação de stress pós-traumático", explica Marina Stussi, coordenadora de saúde mental da Médicos do Mundo na resposta ao terramoto na Venezuela.

 

 

Processos de luto ainda por concluir

Ao contrário do que acontece noutras emergências, os processos de luto após um terramoto podem prolongar-se durante semanas. Muitas famílias continuam à espera de notícias de familiares desaparecidos ou da recuperação dos seus corpos para poderem iniciar o processo de despedida.

 

"Nos primeiros dias, as pessoas estão focadas na sobrevivência e na resolução dos problemas imediatos. Com o passar do tempo, surge o cansaço e as pessoas começam a confrontar-se com a dor, a perda e o desespero", refere Marina Stussi.

 

A organização alerta ainda para um dos equívocos mais comuns nestes contextos: acreditar que o passar do tempo, por si só, é suficiente para ultrapassar um trauma.

 

"Existe o mito de que o tempo resolve tudo ou de que basta dizer a alguém: ‘ao menos está vivo’. O que realmente ajuda é reconhecer as emoções, validá-las e acompanhar as pessoas para que consigam processar aquilo que viveram."

 

 

Crianças entre os grupos mais vulneráveis

As crianças estão entre os grupos que mais preocupam as equipas da Médicos do Mundo destacadas para a resposta à emergência.

 

"Há muitas crianças com um trauma psicológico significativo. Muitas têm medo de regressar a casa, mesmo quando as habitações continuam habitáveis", explica Ricardo Angora, psiquiatra da Médicos do Mundo na Venezuela.

 

Os profissionais têm observado alterações do sono, necessidade constante de proximidade dos pais, receio de ficarem sozinhas e mudanças de comportamento que agravam as dificuldades enfrentadas por famílias que, além do impacto emocional, perderam casas, rendimentos e meios de subsistência.

Para as crianças, recuperar pequenas rotinas do quotidiano e sentir-se acompanhadas constitui uma parte essencial do processo de recuperação. Explicar o que aconteceu de forma honesta e adequada à idade, brincar e proporcionar um ambiente seguro são medidas que podem ajudar a reduzir o impacto psicológico da catástrofe.

 

 

Sobreviver não significa ultrapassar o terramoto

As consultas de apoio psicológico evidenciam histórias que vão muito além da perda de habitação ou de bens materiais.

Ricardo Angora relata o caso de uma pessoa recentemente reformada que investira as poupanças acumuladas ao longo de 35 anos de trabalho numa casa destruída pelo terramoto.

"Sobreviveu, mas sente que perdeu a possibilidade de recomeçar. Não consegue vislumbrar uma saída."

 

Histórias semelhantes repetem-se entre pessoas idosas, famílias que perderam os seus lares e pessoas que enfrentam agora um futuro marcado pela incerteza.

Por isso, a Médicos do Mundo sublinha a importância de garantir apoio em saúde mental o mais cedo possível. A intervenção precoce contribui para reduzir a intensidade do impacto emocional, reforça a capacidade de adaptação das pessoas afetadas e diminui o risco de desenvolvimento de problemas psicológicos mais graves.

Presente na Venezuela desde 2019, a Médicos do Mundo está a reforçar os cuidados de saúde primários, o apoio psicossocial e o acompanhamento psicológico, com especial atenção às pessoas deslocadas e a outros grupos em situação de maior vulnerabilidade.

Porque, um mês após o terramoto, quando as câmaras começam a afastar-se, a reconstrução mais difícil está apenas a começar: a da saúde mental.

 

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