22 de maio de 2026
A República Democrática do Congo (RDCongo) enfrenta uma nova epidemia de Ébola, num contexto já marcado por conflitos armados prolongados e pela fragilidade estrutural do sistema de saúde. Trata-se da 17.ª epidemia registada no país desde a identificação do vírus, em 1976, colocando novamente a região sob forte pressão sanitária e humanitária.
De acordo com os dados mais recentes do Ministério da Saúde congolês, a epidemia já provocou mais de 160 mortes e foram identificados cerca de 670 casos suspeitos, com epicentro na província de Ituri e propagação às regiões vizinhas do Kivu do Norte e Kivu do Sul.
A atual epidemia está associada à estirpe Bundibugyo, menos comum e ainda pouco conhecida. Ao contrário de outras variantes do vírus, não existe vacina nem tratamento específico disponível, e a taxa de letalidade (proporção de pessoas diagnosticadas com a doença que acabam por morrer) pode situar-se entre 40% e 90%, com estimativas médias em torno dos 50%. Neste contexto, a prevenção e o controlo da infeção assumem um papel central.
Resposta adaptada a um contexto complexo
Presente na RDCongo há várias décadas, a Médicos do Mundo intervém em diferentes regiões, incluindo Kinshasa, Kivu do Norte, Kivu do Sul e Tanganyika, assegurando o acesso a cuidados de saúde primários, saúde sexual e reprodutiva, apoio nutricional e psicossocial, sobretudo junto de populações deslocadas e em situação de maior vulnerabilidade.
Face à progressão da epidemia, as equipas no terreno adaptaram rapidamente as suas atividades, reforçando medidas de prevenção e controlo da infeção nas unidades de saúde apoiadas. Esta adaptação é essencial num contexto marcado por deslocamentos da população em condições difíceis e inseguras, que dificultam o controlo da epidemia.
- Para reduzir o risco de transmissão, foram implementados protocolos rigorosos, incluindo:
- Aplicação de uma política de “não contacto”;
- Uso obrigatório de máscara nos serviços de saúde;
- Medição sistemática da temperatura à entrada das infraestruturas de saúde;
- Instalação de pontos de higienização das mãos com sistemas de cloração;
- Limpeza e desinfeção frequente dos espaços;
- Isolamento durante 21 dias de pessoas com sintomas suspeitos.
Nos centros de saúde, foi também necessário reorganizar os circuitos de atendimento e triagem, com a criação de espaços específicos para isolamento de casos suspeitos, prevenindo contágios cruzados.
Prevenção e envolvimento comunitário no centro da resposta
Sem vacina nem tratamento disponível, a resposta assenta sobretudo na prevenção. A identificação precoce de casos suspeitos e o rastreio de contactos são determinantes para travar a propagação do vírus.
Neste âmbito, a Médicos do Mundo está a reforçar:
- A formação de profissionais de saúde em prevenção e controlo de infeções;
- A disponibilização de equipamentos de proteção individual e materiais de higiene;
- A vigilância epidemiológica;
- A mobilização de redes comunitárias para sensibilização da população.
O trabalho junto das comunidades é um pilar essencial. As equipas promovem ações de sensibilização sobre sintomas, formas de transmissão e medidas de proteção, ao mesmo tempo que combatem a desinformação e os rumores frequentemente associados a surtos epidémicos.
Uma população informada é determinante para garantir a deteção precoce de casos e a adesão às medidas de saúde pública, contribuindo diretamente para interromper cadeias de transmissão.
Coordenação e desafios estruturais
A resposta à epidemia é desenvolvida em estreita articulação com as autoridades de saúde congolesas, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e outros atores humanitários, garantindo uma abordagem coordenada e eficaz.
Contudo, esta nova crise surge num contexto particularmente desafiante. A RDCongo enfrenta simultaneamente outras emergências sanitárias, como surtos de cólera em algumas regiões, aumentando a pressão sobre um sistema de saúde já fragilizado por décadas de instabilidade e conflito.
A redução do financiamento humanitário e da cooperação internacional agrava esta situação, limitando a capacidade de prevenir, monitorizar e responder a múltiplas crises de saúde pública.
Uma ameaça que ultrapassa fronteiras
A ausência de tratamento, a mobilidade populacional, a insegurança e a fragilidade dos sistemas de saúde criam condições propícias à propagação do vírus para além das fronteiras da RDCongo.
Perante este cenário, a intervenção da Médicos do Mundo centra-se não apenas na resposta imediata à epidemia, mas também no reforço da resiliência das comunidades e das infraestruturas de saúde, contribuindo para uma resposta mais eficaz e sustentável a crises futuras.
