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Rede MdM Internacional
“É utente aquele que dorme na escada, como o é uma grande figura. A qualidade do cuidado de um ou de outro tem que ser igual. É inaceitável que possa ser diferente.”
12-5-2017

“É utente aquele que dorme na escada, como o é uma grande figura. A qualidade do cuidado de um ou de outro tem que ser igual. É inaceitável que possa ser diferente.”

Toda a missão da Médicos do Mundo é possível e suportada por um conjunto de profissionais que, diariamente, se superam na realidade a que são expostos.

No dia de hoje, 12 de Maio, assinalamos o Dia Internacional do Enfermeiro e damos a conhecer o testemunho de Joana Tavares, enfermeira na Médicos do Mundo.  

Joana faz parte da organização há quatro anos e vê no seu trabalho a resposta necessária para igualar os direitos das pessoas vulneráveis que, a seu ver, merecem a mesma atenção dada a todos os outros utentes.

“Trabalhar numa ONG é um desafio muito gratificante.

Em alternativa ao Sistema Nacional de Saúde, o nosso trabalho permite uma percepção mais efectiva e abrangente da comunidade e o desenvolvimento de outras competências profissionais e pessoais. No contexto em que nós trabalhamos, acabam por existir várias populações-alvo, com diferentes backgrounds e é ao estarmos no terreno que nos vamos apercebendo dos hábitos.

O trabalho que é feito na comunidade nada tem a ver com o quotidiano “normal” de um enfermeiro. A nível de hospital ou de centro de saúde, o trabalho de enfermagem não tem mais ou menos validade, mas acabamos por estar integrados numa equipa, que embora multidisciplinar, é da nossa área. No trabalho em comunidade, acaba por haver uma articulação mais efectiva. Quando trabalho aqui, não trabalho com mais 10 enfermeiros. Trabalho com uma psicóloga, com técnicos e vamos ganhando outros conhecimentos e outras perspectivas de diferentes áreas de actuação, que enriquecem a nossa sensibilidade em certas situações com as quais temos que lidar.

 
Mas há algo que não muda. O centro do cuidado é sempre o utente.

Quando estamos no centro de saúde ou no hospital, o utente vem ter connosco. Naquele espaço, ele é o convidado e já nos procura com uma intenção mais precisa.

Quando vamos à comunidade, somos nós os convidados no espaço do utente. Nem que seja um degrau na rua. E enquanto somos convidados, temos que nos portar enquanto tal.

Quando abordamos alguém na rua, essa pessoa pode estar ou não disponível para receber determinados cuidados. E é aí que percebemos se estamos a ser aceites, ou não, pelo outro. Normalmente, os enfermeiros não estão habituados a estar nessa posição, pelo que se torna um desafio. Não estão habituados a que o utente diga “não quero”.

Eu, enquanto enfermeira, posso dirigir-me a um utente, explicar-lhe que precisa de determinados cuidados mas ter que lidar com a rejeição. E nesses momentos temos que saber gerir.

O utente é o centro do cuidado em qualquer um dos casos. A questão é a disponibilidade para aceder aos cuidados de saúde. Mas seja em que espaço for, o importante é manter o respeito pela sua autonomia.


O nosso papel é explicar à pessoa a sua situação e riscos, de forma a que compreenda e possa tomar uma decisão informada. Temos que ser o intermediador/ facilitador de informação e desmontá-la, torná-la compreensível, para que o utente tome uma decisão em consciência, conhecendo os riscos a que se expõe e as opções ao seu dispor.

E muitas vezes o nosso trabalho não é fácil.

O próprio sistema tem falhas. E nós não podemos controlar tudo. Sabemos que a pessoa tem direito aos seus cuidados, mas nem sempre é assim tão simples.

Temos um utente que estava a dormir à porta de uma igreja. Tinha um problema do foro urinário e foi encaminhado para o hospital. E lá foi-lhe dada alta, com a indicação de que deveria aplicar um creme e apanhar ar na zona genital. Mas isto era possível se o utente estivesse numa casa, resguardado. Mas, neste contexto, como pode a pessoa cumprir esta indicação se vive na rua?

Lidamos algumas vezes com a falta de percepção do que se passa realmente na vida destas pessoas. Há que acautelar as coisas de outra forma. Com mais sensibilidade e conhecimento da realidade da pessoa.

Onde pode uma pessoa em situação de sem-abrigo deixar a sua mochila, que muitas vezes é tudo o que tem, quando precisa de ir a um hospital e a ambulância não deixa transportar os seus pertences? Onde é que deixa as suas mantas para dormir à noite? Onde é que deixa o seu animal de estimação se precisar de ir a uma consulta? Faltam respostas…Eu sei que parecem pormenores, mas isto pode ser o suficiente para que o utente não aceda a cuidados de saúde.

Mas também temos histórias muito boas. Passamos muito tempo em equipa, com vários utentes que se ligam a nós. Os momentos partilhados, o que aprendemos com as pessoas na comunidade e o reconhecimento dos utentes e das outras equipas em relação à qualidade do nosso trabalho são compensadores.

“Isto é trabalho. Independentemente de ser num hospital, num centro de saúde ou na rua. Reconhecer a qualidade e o profissionalismo é importante. Nós não fazemos caridade. Trabalhamos de forma profissional.”