RSS Facebook Twitter YouTube BlogSpot
SIGA-NOS
RECEBA A NOSSA
REVISTA FACE
insira o seu endereço electrónico

Rede MdM Internacional
 “Aqui cuidamos de outra franja da sociedade. É quase outra enfermagem.”
16-5-2017

“Aqui cuidamos de outra franja da sociedade. É quase outra enfermagem.”

Já cuidou de muitas pessoas dentro das quatro paredes dos hospitais. No ano passado foi desafiada para integrar a equipa da Médicos do Mundo e sair da sua zona de conforto.

É aqui, no trabalho na comunidade, junto de quem mais precisa, que a enfermeira Joana destaca a existência de uma outra enfermagem que alia os cuidados de saúde a outros tão ou mais importantes: os cuidados afectivos.                                                      

“Para mim trabalhar numa ONG é um grande desafio.

Sempre trabalhei em hospitais, dentro de quatro paredes, onde tudo funciona de forma muito estandardizada, com protocolos, pouca autonomia, muito dependentes da equipa médica e de colegas da mesma área que a nossa.

Trabalhar como enfermeira na Médicos do Mundo é completamente fora da caixa.

 

Até as acções de sensibilização são diferentes do que habitualmente é feito num hospital ou num centro de saúde, em que a população que acede aos cuidados de saúde está mais disponível para receber as informações e as indicações necessárias.

Aqui cuidamos de outra franja da sociedade e o desafio é mesmo esse.

Temos que servir outra parte da sociedade que não acede a nada do que é standard e dito convencional. Temos que nos colocar no lugar do outro para podermos chegar ao seu espaço e explicar-lhe a sua situação e os cuidados necessários.

Por exemplo, como é que se fazem acções de sensibilização para uma população em situação de sem-abrigo que não tem hábitos de vida regulares? Como é que se chega a pessoas que são nómadas por excelência e que não acedem aos cuidados de saúde?

Lidamos com populações que estão vulneráveis e com dificuldade em manter as medicações necessárias, seja pelas condições económicas, por dependências que tenham ou por outras razões.

É diferente cuidar destas pessoas em comparação com a população em geral.

 

Aqui somos nós que procuramos as pessoas e não são as pessoas que procuram o serviço de saúde. E nem sempre é fácil. Temos que ter uma visão mais alargada do utente e a sensibilidade para perceber o seu contexto social, a sua situação e a vulnerabilidade da mesma. Para mim é quase outra enfermagem.

Uma vez um senhor foi ter connosco para fazer a avaliação da tensão arterial. O utente entrou na nossa Unidade Móvel, eu cumprimentei-o, apresentei-me e perguntei o que é precisava. Eu notei que o utente estava muito ansioso e perguntei “Mas está tudo bem consigo?” e o senhor respondeu-me “Acha normal que eu nunca tenha sido acarinhado na minha vida?”

Fiquei logo a pensar que a tensão arterial era, para ele, o menor dos seus problemas.

A nossa actuação junto da comunidade mais desprotegida e mais vulnerável é completamente diferente. A falta de amor, de afecto de relações humanas na vida dos utentes tem impacto directo no nosso trabalho e na forma como lidamos com eles. Há pessoas que vêm ter connosco só para nos verem e para falar. Sabem que é um tempo que nós temos, mas que é deles.

Mesmo quando fazemos as visitas domiciliárias, as pessoas pulam de alegria e dizem “Ai que bom. Veio hoje!”.

E essa carência afectiva torna-se num desafio para nós. Deixamos de nos cingir ao processo de doença e de convalescença. Há outras necessidades afectivas que temos que ter em consideração.

E claro que ficar a ouvir as pessoas e dar-lhes afecto não é exercer enfermagem, mas é cuidar delas.”

        Joana Fernandes