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“Nós estamos aqui, todos os dias” – Combatemos o isolamento dos idosos em Lisboa
20-11-2017

“Nós estamos aqui, todos os dias” – Combatemos o isolamento dos idosos em Lisboa

Aqui em Lisboa, a Médicos do Mundo actua junto da população  idosa vulnerável, de modo a prevenir o isolamento e a exclusão social. Promover o envelhecimento activo e instituir hábitos de vida saudáveis são os principais objectivos dos projectos VIVA e Viver Saudável.

“O que nos move diariamente é o bem-estar das pessoas e as suas necessidades” – afirma Joana Fernandes, enfermeira nos projectos nacionais da Médicos do Mundo, em Lisboa.


Créditos: Catarina Névoa

Para que conheça melhor a população apoiada pela Médicos do Mundo e perceba o trabalho que é feito pela equipa técnica, falámos com Joana Fernandes.

Médicos do Mundo (MdM): A Médicos do Mundo desenvolve projectos que visam melhorar as condições de vida dos beneficiários e atenuar os impactos da exclusão e do isolamento social. Quais são as principais preocupações na intervenção junto destes idosos?

Joana Fernandes (JF): No terreno, temos dois grupos distintos de idosos, o que faz com que as preocupações e o trabalho sejam naturalmente diferentes.

Por um lado, existem idosos que recebem diariamente o nosso apoio domiciliário e que apresentam risco de isolamento e de exclusão, por se encontrarem desacompanhados ou terem necessidades específicas. Nestes casos, a resposta que é dada pela equipa tem de ser multidisciplinar. Para além das ajudantes familiares que prestam os cuidados diários e inadiáveis a estas pessoas, trabalhamos com uma equipa muito completa, que inclui a enfermagem e a assistência social. Nesta medida, o que fazemos em equipa é procurar levar  todos os recursos disponíveis até à pessoa em questão. Semanalmente, a equipa avalia e debate o trabalho realizado, para que todas as necessidades identificadas  sejam respondidas de forma  quase imediata.

Por outro lado, temos outros idosos, mais activos na comunidade, que participam num grupo de voluntariado sénior. Através de visitas e actividades, este grupo complementa a nossa intervenção, ao promover a animação e socialização dos outros beneficiários que vivem mais isolados.

Este grupo foi formado no âmbito de um projecto da Médicos do Mundo já finalizado e denominado de Grupo de Voluntariado Sénior, que é agora auto-sustentável. As pessoas que o compõem organizam-se, vão a casa dos idosos, conversam, levam-nos à rua (se o utente assim o desejar), acompanham-nos a serviços, marcam consultas, fazem pequenos recados, entre outras tarefas. É um serviço muito personalizado, quase desenhado à medida de cada pessoa e que nos ajuda, enquanto equipa, a sinalizar eventuais necessidades e a aumentar a rapidez das respostas.

No caso dos idosos que são activos na comunidade, também existe uma preocupação com o seu isolamento social. São pessoas que têm outro tipo de problemas, algumas vivem sozinhas, podem ter um humor mais depressivo ou estar numa pior fase das suas vidas e torna-se necessário estarmos atentos para darmos o melhor acompanhamento possível. Nos nossos projectos, retiramos estas pessoas de casa e integramo-las na comunidade para  acabar com o seu isolamento e fortalecer o sentimento de pertença e utilidade. No fundo, preocupamo-nos com o bem-estar, físico e emocional, de todos os idosos que dependem do apoio, da rotina e dos serviços de que necessitam.

MdM: Essa rotina é muitas vezes da responsabilidade dos cuidadores informais. Qual a relação da Médicos do Mundo com estes cuidadores?

JF: Nós procuramos que seja uma relação próxima e não somente cingida às situações de desagrado, ou seja, às situações em que os cuidadores referem que os familiares não se estão a sentir bem e que precisam de ajuda. Há pouco tempo realizámos o primeiro “Open Day” do projecto Viver Saudável, em que abrimos as portas aos cuidadores informais. Sentimos que era necessário criar um espaço para que nos pudessem conhecer melhor, tirar dúvidas e partilhar as suas experiências. Este tipo de iniciativas são importantes para que possamos dar a conhecer a nossa equipa multidisciplinar, as respostas que existem e outros apoios que são providenciados por nós, embora não estejam contractualizados, tais como a fisioterapia e os apoio medicamentosos, médicos e de enfermagem, entre outros. Aqui,  não nos podemos centrar apenas na pessoa idosa sem olhar para a família, para a rede de vizinhança e para a comunidade em que se insere.

MdM: Recentemente, o projecto Saber Viver deu lugar ao Projecto VIVA. Quais as respostas que complementam este novo projecto?

JF: O projecto é diferente, tem mais respostas e os idosos estão maravilhados. Para além das aulas de grupo e individuais de hidroterapia e fisioterapia, também temos a estimulação cognitiva, o que lhes proporciona  um maior bem-estar físico e psicológico. A grande mais-valia deste projecto é realmente a personalização. É um projecto muito direccionado para as necessidades individuais das pessoas que apoiamos, promovendo simultaneamente o grupo com as actividades e as oficinas temáticas.

MdM: Ser enfermeira na Médicos do Mundo, nomeadamente em projectos com idosos, inclui necessariamente outras componentes que não se limitam aos cuidados de saúde. Que outras competências são necessárias para trabalhar com estes idosos?

JF: Por um lado, é preciso uma grande disponibilidade, uma mente aberta e receptiva para lidar com estes idosos, tanto pela sua idade, como pela experiência de vida que não é, necessariamente, igual à nossa ou à de outros idosos com quem convivemos. É preciso também um grande dinamismo para conseguir contornar o comodismo e o medo que os idosos têm daquilo que não conhecem, incentivando-os à prática de novas actividades. Até porque, depois de experimentarem, ficam encantados com o bem-estar que proporcionamos. Depois, é preciso um imenso respeito. Um imenso respeito pela negação, pelo medo e pelo tempo da pessoa. É e será sempre difícil colocarmo-nos no lugar do outro mas, juntos, conseguimos chegar a bom porto.

O projecto VIVA começou há um mês e aquilo que, no início, era uma grande resistência, começou a ser desbloqueado pela hidroterapia e pela fisioterapia. Agora, os idosos estão a começar a sentir-se melhor e estão mais disponíveis para as outras coisas. Não se pode desistir deles. É preciso contribuir para o seu bem-estar, com persistência e tambémmuito respeito pelas suas vidas.

MdM: Que mensagem gostaria de deixar a quem ajuda a Médicos do Mundo a estar AQUI, em Portugal?

JF: Peço que não percam a fé em nós e que nos continuem a ajudar porque, realmente, nós estamos aqui, todos os dias. É muito gratificante apoiar uma pessoa que mora sozinha e trabalhar para lhe proporcionar o máximo de bem-estar até ao último minuto. Levar uma cabeleireira a casa de uma pessoa que vive isolada, e que, por qualquer motivo, está impossibilitada de sair à rua, é um momento especial. Conseguimos ver o brilho na cara dessas pessoas quando de se vêem ao espelho ou numa fotografia. De facto, nós estamos aqui. Para além de ajudarmos a limpar a casa, a tratar da roupa e a cuidar da pessoa, providenciamos muitos outros serviços, cuidados e miminhos. E, quando existe necessidade, também conseguimos perceber os limites da nossa capacidade e encaminhamos os casos para outras organizações. Aqui, o bem-estar da pessoa está em primeiro lugar. E, se a resposta que têm connosco não é suficiente, passamos a pasta a quem possa dar mais. Isto é saber trabalhar bem. No fundo, o que interessa é o bem-estar da pessoa e as suas necessidades. E, para que possamos manter este trabalho,  precisamos da ajuda de todos.