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"Idiopatias do Ser: representações várias do capitalismo", por Paulo Serra.
Neste breve ensaio o autor alerta para a naturalização do capitalismo nas sociedades pós-modernas, identificando-a como impulsionadora do afastamento humano do ser. A concepção do mundo e os seus conceitos (neste ensaio veremos 3 conceitos médicos) foram alterados, corrompidos por uma causa que se diz progressista.

«Há duas décadas atrás as pessoas ainda discutiam o futuro político da humanidade. Será que o capitalismo vai prevalecer ou será que vai ser suplantado pelo comunismo ou por uma outra forma de totalitarismo? As pessoas discutiram esta questão ao mesmo tempo que aceitavam silenciosamente que, de alguma forma, a vida social iria continuar. Hoje em dia, pelo contrário, podemos imaginar facilmente a extinção da vida humana, da raça humana, ou o fim da vida na terra, mas é impossível imaginar uma alteração muito mais modesta do sistema social - é como se, mesmo que se extinguisse toda a vida na Terra, o capitalismo pudesse de alguma forma permanecer intacto. Portanto, é possível imaginar o fim do mundo, mas não é possível imaginar o fim do capitalismo.» (1)

Apesar de cada vez que a palavra "capitalismo" é pronunciada, uma imagem surja -já construída- na cabeça de cada pessoa, este texto irá tratar o capitalismo como o grande arquitecto do mundo em que vivemos, ou seja, toda a concepção do mundo (Weltanschauung) que temos é construída a uma imagem capitalista (2). Utilizando uma metáfora-imagem, no conto O Flautista de Hamelin, dos Irmãos Grimm, o capitalismo é o som que sai da flauta (promessa de algo maravilhoso, efeito hipnotizador, que nos cega a razão, etc.); não é a flauta nem tampouco o flautista. Esta é a minha imagem (ou uma delas) do capitalismo: um resultado. «A economia [ver nota de rodapé 2] pertence à camada consciente da vida das sociedades. Está mesmo no cerne da consciência que as sociedades podem ter de si mesmas, porque se apoia no que de mais simples há no homem: a lógica do interesse individual.» (3); é aqui que a frase popularizada por Hobbes (4), homo homini lupus (o Homem é o lobo do Homem), toma forma, ou melhor, pode tomar duas formas possíveis: a de flauta (instrumento) ou a de flautista (executante).

De forma a melhor apresentar o problema, proponho um exercício: o de construir um vocabulário do capitalismo, aqui afunilado para o campo da Medicina (a clínica, ou como sistema médico), tentando assim perceber as alterações que o capitalismo exerce na nossa percepção da realidade. Eis 3 conceitos que dão início a este vocabulário:

Cura: Ou tratamento capitalista; a cura capitalista tem de ser rápida e superficial. A obsessão pela cura (fruto de uma maior obsessão, sendo esta, o prolongamento da vida) tem de ser mantida, então, a cura não pode ser definitiva- mas criou-se essa ilusão. Os casos de sucesso são objecto de estatística geral, os casos de insucesso são desvalorizados (tal como a morte, se puder ser lucrativa, a morte de uma personagem famosa, por exemplo, nesse caso, aproveita-se até ao desgaste; a morte, dita, da pessoa comum, essa é menosprezada, excepção feita se der para fazer notícia dela, ou seja, de algum modo lucrar com ela.).

Hospital: Local munido de instrumentos e aparelhos exclusivos. Antagónico a casa. Sendo uma instituição, o paciente é um caso. Nas palavras de Illich, «Num hospital onde a técnica é complexa, a negligência torna-se um erro humano "aleatório", a insensibilidade "distanciação científica", e a incompetência "falta de equipamentos especializados".» (5), e conclui, «A despersonalização do diagnóstico e da terapêutica faz passar as más práticas do domínio ético à categoria de problema técnico.» (6).

Bem-estar: Interligado à auto-estima, não se consegue alcançar por si só. O caminho fácil, esse grande aliado do capitalismo, é recorrer aos analgésicos (na língua inglesa conhecidos também como painkillers (assassinos da dor), assim «[...] o Prozac abre caminho ao que Kramer designa por "cosmética farmacológica", quer dizer, a absorção de uma droga, não pelo seu valor terapêutico, mas apenas por fazer a pessoa sentir-se "mais do que bem". Se a auto-estima é assim tão importante para a felicidade humana, porque razão se não há-de querer um pouco mais?» (7). Ivan Illich, pessoa lúcida num mundo que considerava anestesiado, afirmou que «[...] a organização de toda a economia dirigida para um melhor-estar é o obstáculo maior para o bem-estar.» (8).

Na época medieval acreditava-se que a dor (não incutida) propiciava ao Homem sentir o seu corpo (ossos, órgãos e músculos), era pela dor que se sentiam, ou, sentiam-se. A ideia não é descabida, pois quando nos dói o estômago, por exemplo, só aí é que o sentimos; durante o dia-a-dia ele passa despercebido. Hoje, a dor é insuportável, a dor é a mesma, nós é que nos tornámos insuportáveis a ela.


Um dos grandes problemas é a naturalização do capitalismo no quotidiano geral, ou o trabalho dessa mesma naturalização. Qualquer que seja o sistema ou ideologia, tem de ser identificado, explícito. Tudo isto remete-me para o conceito psicanalítico de recusa, em que uma pessoa tem conhecimento disso (do acontecimento, traumático ou não), mas simplesmente recusa a realidade implicante desse acontecimento. Não quero viver onde «A sociedade de mercado [ver nota de rodapé 2] tende a elevar à condição de heróis aqueles que sabem ganhar dinheiro e tornarem-se notados (frequentemente ambas as coisas) a expensas de outros que podem possuir virtudes muitos maiores, mas não "vendáveis".» (9), é voltar novamente a Hobbes.

Dizer hoje estamos melhor que antigamente é não querer ver que não o estamos.


Notas de rodapé:

(1) ZIZEK, Slavoj, Human Rights and Its Discontents (1999), Os Direitos Humanos e o nosso Descontentamento, Trad. Leontina Luís, Mangualde, Edições Pedago, 2007, p. 23.
(2) A utilização do termo "capitalismo" não é muito usual nos dias que correm, opta-se pela utilização de sinónimos (com o efeito de mascarar), tais como, "economia", "império", "indústria", "globalização", "mercado", etc.
(3) TODD, Emmanuel, L?Illusion Économique (1998), A Ilusão Económica, Trad. Armando Pereira da Silva, Lisboa, Instituto Piaget, 1999, p. 27.
(4) Thomas Hobbes, filosofo inglês (n. Malmesbury, Wiltshire, 5.4.1588 - m. Hardwike, 4.12.1674). Frase original da obra de Plauto, Asinaria, modificada por Hobbes.
(5) ILLICH, Ivan, Némésis Médicale (1975), Limites para a Medicina, Trad. Eduardo Moradas Ferreira, Lisboa, Livraria Sá da Costa Editora, 1977, p. 29.
(6) ibidem
(7) FUKUYAMA, Francis, Our Posthuman Future (2002), O Nosso Futuro Pós-Humano, Trad.. Vítor Antunes, Lisboa, Quetzal Editores, 2002, p. 83.
(8) ILLICH, Ivan, Tools for Conviviatily (1973), A Convivencialidade, Trad. Arsénio Mota, Lisboa, Publicações Europa-América, 1976, p. 129.
(9) FUKUYAMA, Francis, The Great Disruption (1999), A Grande Ruptura, Trad. Mário Dias Correia, Lisboa, Quetzal Editores, 2000, p. 368.



publicado em: 19 de Agosto 2009
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